domingo, 6 de agosto de 2017

Garraiadas “de rua” – O Sofrimento dos Animais

Entre as várias actividades tauromáquicas que acontecem em Portugal, contam-se as garraiadas. Uma grande parte destas (académicas ou não) realiza-se em recintos improvisados e sem que se cravem ferros nos animais. Talvez por isso, seja tão comum as pessoas menos informadas pensarem que, quando assim é, estamos perante “uma brincadeira que se faz com os animais e que em nada os prejudica”. Será assim?

A maioria dos bovinos utilizados nas garraiadas que se realizam nos tais recintos improvisados e em que, habitualmente, não se cravam ferros, são muito jovens. Alguns são fêmeas que têm menos de 1 ano de idade, ou entre 1 a 2 anos. São seres algo frágeis, que ainda têm os seus corpos em formação, ficando assim muito sujeitos a sofrerem lesões, e que sentem seguramente mais medo perante o que são obrigados experimentar do que se já tivessem mais idade. (Nalgumas garraiadas deste tipo, também se utilizam, por vezes, machos de idade inferior a 3 anos.)

O sofrimento dos animais vítimas deste tipo de garraiadas está sempre presente na sua preparação para este tipo de eventos, no transporte de ida e volta e respectivos períodos de espera, e durante a garraiada. Ficam algumas notas:


1. Preparação/Embolação


O sofrimento começa na captura e “preparação” das vítimas para esta actividade tauromáquica com intervenções que as enfraquecem. Uma destas intervenções é a embolação, que consiste na anulação do poder de perfuração pelos cornos, através do corte das respectivas pontas e da aplicação de materiais de revestimento.


Embolada para a garraiada de 5/8/2017 nas Figueiras, Marinha Grande 

No caso das garraiadas “de rua”, a embolação tem como única finalidade reduzir a probabilidade de as pessoas que “brincam” com estes seres se magoarem. Ainda assim, talvez com o intuito de fazer com que as pessoas que participam se sintam bravas, é habitual que a organização enfatize que não se responsabiliza por danos físicos (podem ouvir-se este tipo de advertências no vídeo seguinte, efectuado na garraiada de 5/08/2017 nas Figueiras, Marinha Grande).


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A embolação é um processo que causa, muitas vezes, lesões na coluna vertebral dos bovinos. Quanto mais jovens forem os animais, maior a probabilidade de isso acontecer. E é um processo de tal modo stressante que é natural que alguns indivíduos morram de ataque cardíaco durante o mesmo. Mas em que consiste afinal exactamente a embolação? Conferir aqui s.f.f: http://mgranti-touradas.blogspot.pt/2012/07/embolacao.html


2. Transporte de ida e espera nos contentores de transporte


O transporte dos chamados “garraios” é feito dentro de exíguos contentores. Sendo estes animais criados em grandes extensões de terreno, em ambientes pouco barulhentos e nos quais pouco interagem com pessoas, é fácil de perceber que o transporte cause claustrofobia, pânico, acentuada perda de peso (que chega a ser de 10% do peso inicial) e desgaste. 

Viagem de ida concluída, as vítimas das garraiadas que se realizam em recintos improvisados são ainda obrigadas a permanecer nas imediações dos mesmos, dentro dos contentores de transporte, durante horas, enquanto aguardam pela sua vez de servirem de brinquedo para alguns humanos. São horas em que mal se podem mover, passadas sob temperaturas como as que se registam nas tardes de Verão em Portugal. 

Não é raro que, durante estes períodos de espera, os animais sejam picados ou levem choques eléctricos com varas preparadas para o efeito. Um dos pretensos objectivos do recurso a este tipo de varas é acalmar os animais quando os mesmos se começam a mexer demasiado (imagine-se!). Paradoxalmente, as mesmas varas também são utilizados quando se pretende que os animais saiam dos contentores. 

Figueiras, Marinha Grande - 5/08/2017

3. A garraiada


O sofrimento prossegue no recinto improvisado com ludíbrio e maus-tratos infligidos às vítimas, que ficam assustadas, esgotadas anímica e fisicamente, e lesionadas (quando não até mesmo mortas). O nível de sofrimento depende de alguns factores, como o número de pessoas envolvidas e aquilo que fazem, que chega, nalguns casos, a incluir socos e pontapés.

Há garraiadas nas quais mais de uma dezena de pessoas se atira, em simultâneo, para cima dos animais, com todas as possíveis lesões daí decorrentes.




Há outros casos, em que aparece menos gente para “brincar” com os animais, o que não impede situações como eventual cegueira, resultante de uma simples pancada num olho. No vídeo que se segue, captado na garraiada de 5/08/2017 nas Figueiras, Marinha Grande, vê-se um dos dois únicos participantes humanos a subir um gradeamento e a dar um pontapé num dos animais que foram obrigados a participar. Não é difícil de perceber que tal pontapé quase atingiu um dos olhos da vítima.

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Não é raro que se dêem fortes puxões na cauda dos jovens bovinos. E sendo a cauda composta por uma sequência de vértebras que se articulam umas com as outras e sendo também um prolongamento da coluna vertebral, tais puxões provocam muitas vezes luxação de vértebras, ruptura de ligamentos e de vasos sanguíneos, desconexões com o tronco e comprometimento da medula espinhal. 

Puxão de cauda numa garraiada nas Cortes, Leiria

É um facto que nas garraiadas, sendo ou não utilizadas farpas, se inflige sofrimento físico e psicológico gratuito aos jovens animais que pode até culminar na morte, como aconteceu, por exemplo, durante uma garraiada académica em Vila Real, em que uma bezerra morreu por quebra de pescoço.


4. O transporte dos animais vivos de volta


O sofrimento não deixa de estar presente na recolha, novo transporte, etc., havendo lesões que deixam marcas para o resto da vida.


5. “Garraios” como seres sencientes


É importante termos presente que os animais utilizados nas garraiadas são seres sencientes. Quer isto dizer que são seres que têm não só sensibilidade, como também consciência, tal como os animais ditos humanos. Com efeito, a moderna investigação em neurociência removeu quaisquer dúvidas que pudessem existir acerca da senciência de animais como as aves e os mamíferos (e.g. “bovinos de lide”), tal como é evidenciado pela “The Cambridge Declaration on Consciousness”, que foi assinada na Universidade de Cambridge em 2012 por um grupo proeminente de neurocientistas cognitivos, neurofarmacologistas, neurofisiologistas, neuroanatomistas e neurocientistas computacionais (vide s.f.f. http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf

Fará sentido desrespeitarmos os animais? Fará sentido o desrespeito chegar ao ponto de os obrigarmos a participar em actividades que visam apenas entreter-nos? Teremos todos/as a noção de que os animais que são obrigados a participar em garraiadas sentem dor, medo e ansiedade? Não haverá maneiras de entreter as pessoas sem prejudicar ninguém? Ficam estas questões para reflexão.

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